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DIÁRIO

Atualizado: 14 de fev.

Antigamente quando se pensava em um futuro avançado imaginavam-se carros voadores, robôs domésticos e até roupas metálicas ou constituídas de tecidos não biológicos. Mas será que já chegamos nesse futuro? Esse futuro imaginário tinha influência da corrida espacial e ficção científica, mas também, um futuro cinza, que representava a escassez, na qual as cidades eram totalmente dependentes da tecnologia, de comidas industrializadas e roupas feitas de fibras sintéticas... Opa, peraí... Sabemos que carros voadores ainda não existem e nem todo mundo tem robô em casa (a IA é outra história), mas muitas coisas já fazem parte da nossa realidade. Seja pelo avanço tecnológico ou pela demasia, e não ausência de certos recursos. E quando falo recursos, não é somente aqueles naturais como o petróleo, mas o seu derivado mais popular, o plástico! Sabemos muito sobre as consequências negativas do plástico nos oceanos, como adentra diversos meios e persiste por longo tempo. 





Acontece que, a indústria avançou na variedade de itens plásticos que utilizamos e precisamos no dia a dia desde utensílios de cozinha, embalagens de alimentos, móveis e até roupas. Mas isso não é novidade pra ninguém, e mesmo que seja, não se trata apenas das roupas de poliéster mas da própria reutilização de diversos plásticos para a confecção de outros itens, como por exemplo roupas feitas de garrafa PET!  



O PET é utilizado na confecção de tecidos sintéticos, como o poliéster. Porém essas fibras liberam microplásticos durante o uso e a lavagem. Estudos mostram que cerca de 500 mil toneladas de microfibras plásticas são liberadas durante a lavagem de roupas sintéticas e aproximadamente 17.830 toneladas por ano chegam aos oceanos.

 

E dessa vez, não falo de roupas feitas pela reciclagem industrial do PET – que, inclusive, também liberam microfibras plásticas durante sua lavagem – mas daquelas feitas a partir da reutilização artesanal. Isso mesmo: cortes da garrafa PET formando um mosaico que se transforma em roupa. Talvez você ache que minha questão aqui seja uma crítica – talvez seja – mas o ponto é, apesar de louvável o trabalho de todos aqueles que reutilizam plásticos e outros materiais em novas artes, roupas e móveis, já chegamos naquele ponto.  


Paula Andrea, estilista de moda, junta, corta, modela, garrafas PET, criando designs de looks inteiros, desde vestidos de gala, saias e croppeds a partir de garrafa PET. https://www.instagram.com/p/DQ40kTHDu65/

 

 

O ponto que não “podemos” utilizar só recursos naturais. E o que era para ser só belo, e ou, ecologicamente correto, se transforma em: uso por que quero, ou por que existe muito desse material disponível ou por que é acessível? E não só acessível pelo preço, mas sim pela hiper-presença de produtos plásticos a cada esquina. A reutilização é uma das soluções, mas não é a única saída. O que eu quero dizer é: se vestirmos roupas feitas de recortes de garrafa PET é resultado apenas da criatividade e pensamento ecológico; ou é o puro suco: chegamos em um ponto que os recursos que nos sobraram são o lixo que produzimos? Então, talvez estejamos mais presentes e perto desse futuro.  Um exemplo desse "futuro presente" é a moda upcycling, que surge como uma forma de reduzir a quantidade de plástico disponível, transformando lixo em matéria-prima para confecções de roupas.


O empreendimento chileno Kyklos, converte resíduos têxteis e garrafas plásticas em roupas de alta qualidade. Cada traje de banho recicla 10 garrafas plásticas.

 

Mas essa reflexão não acaba por aqui... Filmes da época de 60 a 70 já demonstravam cidades fechadas altamente tecnológicas com pessoas vestidas de roupas metalizadas com tecnologia avançada, ou em contraste, pessoas que viviam à beira de ruínas e do lixo tecnológico.  De certa forma, isso não está apenas na ficção: hoje, tecidos sintéticos se tornaram mais acessíveis e roupas de poliéster, poliamida e outras fibras plásticas geralmente são mais baratas do que tecidos naturais como algodão e seda. Por outro lado, mesmo tecidos naturais podem conter metais e derivados de petróleo devido ao processo de tintura.


Enfim, a própria indústria têxtil é responsável pela grande liberação de resíduos, e mesmo na tentativa de reduzi-los por meio de avanços tecnológicos, outros impactos ambientais acabam sendo somatizados. Nesse cenário, o consumismo também não é um aliado, e ficamos cada vez mais próximos de um futuro plástico e sintético.

Roupas feitas a partir da mistura de algodão com fibras plásticas são mais difíceis de reciclar posteriormente e ainda carregam os impactos ambientais das duas cadeias produtivas.

Apesar disso, vale a pena engajar artistas, artesãos, designers que se preocupam com o bem-estar humano e com o meio ambiente, seja produzindo: roupas artesanais de algodão ou peças recicladas - com acabamentos mais duradouros que as produções em massa, e até mesmo aqueles que reciclam, coletam e reutilizam rolons de desodorante e garrafas PET para a produção de bonecas artesanais e enfeites para o lar. Enquanto a indústria não se preocupa com o destino de sua larga produção— sendo a economia circular ainda uma exceção — podemos voltar nossos olhares para trabalhos e pessoas que fazem a diferença na qualidade de vida e para o meio ambiente! 





Referências


KYKLOS. Ropa Upcycling: el emprendimiento que convierte residuos textiles y botellas de plástico en prendas de alta calidad. Kyklos, 2024. Disponível em: <https://kyklos.cl/ropa-upcycling-el-emprendimiento-que-convierte-residuos-textiles-y-botellas-de-plastico-en-prendas-de-alta-calidad/>. Acesso em: 9 fev. 2026.


MARSHA, S. S.; CHOWDHARY, U. Comparison of selected structural and performance attributes of cotton and cotton/polyester blend T-shirts. International Journal of Polymer Textile Engineering, v. 1, n. 1, p. 1–10, 2022. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/361779326_Comparison_of_Selected_Structural_and_Performance_Attributes_of_Cotton_and_CottonPolyester_Blend_T-Shirts>. Acesso em: 9 fev. 2026.


MARQUES, Aldilane Lays Xavier. Análise temporal do bioacúmulo de microplásticos em placentas humanas. 2024. 112 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Saúde) – Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2024.


MESACASA, Andréia; DEMINSKI, Carla Carolina Deola. Fibras Têxteis Sintéticas e a Liberação de Microplásticos: Uma Revisão. Mix Sustentável, Florianópolis, v. 9, n. 1, p. 80–90, dez. 2022. ISSN 2447-0899 (impresso); 2447-3073 (online). Disponível em: <https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/246723/5434-Texto%20do%20artigo-20857-1-10-20221221.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 9 fev. 2026. doi: https://doi.org/10.29183/2447-3073.MIX2022.v9.n1.80-90


SILVA, M. A.; OLIVEIRA, R. C.; SOUZA, J. P. Environmental impacts of polyester-cotton blend compared to cotton fiber in Brazil. Materials Circular Economy, v. 4, n. 1, p. 1–15, 2022.  Acesso em: 9 fev. 2026. (PDF) Comparison of Selected Structural and Performance Attributes of Cotton and Cotton/Polyester Blend T-Shirts

 
 
 
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